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Alimentos incompatíveis

Sabia que pode estar a dar a envenenar-se com certas misturas de alimentos?

Um dos segredos da Ayurveda é a escolha dos alimentos de acordo com o nosso biótipo. A vida saudável acontece através desta dupla influência: as qualidades do alimento a agirem sobre as qualidades do nosso dosha, a caracterização do perfil biológico do indivíduo, de acordo com o ayurveda. A combinação correcta destas duas forças faz aflorar a vitalidade e saúde do corpo.

Contudo, existem alimentos que são absolutamente incompatíveis e arriscar combiná-los é comprometer o processo digestivo. Algumas combinações confundem o suco gástrico e uma gama variada de líquidos diversos é secretada no sistema digestivo. Outras geram maior assimilação dos alimentos, com menor produção de resíduos pós-digestivos. São sinais de uma digestão não saudável.

Talvez já tenha notado que algumas misturas não lhe caem bem, mas provavelmente vai ficar surpreendido com algumas combinações muito utilizadas na sociedade ocidental que não são recomendadas pela ayurveda.  Antes de duvidar das dicas ayurvédicas, procure testá-las. Experimente consumir essas combinações contraindicadas num dia; num outro dia faça a mesma refeição, evitando os alimentos apontados como incompatíveis e observe as reacções do seu organismo. Repita essa experiência algumas vezes e chegue à sua própria conclusão. Verá qie irá levar as indicações ayurvédicas de uma outra maneira. Por exemplo, se consumimos sumo de laranja e leite ao pequeno-almoço, não teremos nem um nem outro no nosso sistema digestivo, mas sim uma espécie de coalhada, a qual prejudica a digestão, agrava kapha e não ajuda o processo de limpeza interno do organismo.

De referir que se uma pessoa anda a consumir essas combinações incompatíveis já há muito tempo, não sentirá nenhum desconforto, mas isso não significa que não tenha desequilíbrios internos, mas sim que o corpo deixou de enviar sinais.

Eis algumas misturas incompatíveis:

Leite com: peixe, ovos, iogurte, alho, banana, melão, melancia e frutas cítricas.

Iogurte com: leite, ovos, queijo, peixe, bebidas quentes, tomate, batata e beringela.

Tomate, batata ou beringela com: leite, iogurte, pepino e melão.

Ovos com: leite, carne, peixe, iogurte, queijo, frutas e feijões.

Ghee (manteiga clarificada) e mel em proporções idênticas.

Frutas frescas nas refeições: as frutas produzem uma digestão ácida que deve ser assimilada antes de misturarmos outro alimento. Só devem ser ingeridas 1 ou 2 horas após a refeição.

Amido com ovos e leite. Por isso, os tradicionais bolos com leite, farinha branca e ovos não são recomendados. No entanto, basta trocar o leite de origem animal por um leite vegetal.

 

Comemos com os olhos (e também com os nossos valores)

Na sua última vinda a Portugal, Colin Campbell, especialista em Bioquímica e Nutrição, disse que uma nutrição holítica e completa consegue-se com multiplicidade de nutrientes, de mecanismos,de agentes reversíveis de doenças e de melhorias na saúde. Para isso, dois factores são essenciais: alimentos integrais e uma dieta à base de vegetais. Três anos depois da conferência do docente da Universidade de Cornell, a Assembleia da República aprovou, em votação final global, um projeto de lei para que se introduza um menu vegetariano nas cantinas públicas. Segundo a Direção Geral de Saúde (DGS), as dietas vegetarianas têm benefícios importantes, como a redução da prevalência de doença oncológica, obesidade, doença cardiovascular, hiperlipidemias (gorduras no sangue), hipertensão, diabetes.

A principal premissa na base do projecto de lei era a liberdade de escolha na alimentação.

“As pessoas sensíveis não são capazes/
De matar galinhas/
Porém são capazes/
De comer galinhas/”

Sophia de Mello Breyner

O cão no prato

 

Qual seria a diferença entre comer um cão e um porco? Por que tendemos a ver o porco, animal conhecido pela inteligência, como comida, e o cão como o nosso melhor amigo? A ironia do caso é que nem sempre o consumidor de carnes ingere exactamente aquilo que imagina. Como se não bastasse a questão do direito à vida dos animais, que muitos humanos sequer consideram, nem a questão da própria saúde da pessoa, nem as demais questões relativas à ética ou à ecologia, ainda, quem consome carnes, se arrisca a comer carne de cachorro ou gato. Uma notícia do dia 12/11/2009 na Folha Online mostra: “Polícia apreende 60 kg de carne de cachorro e gato vendida a restaurantes em São Paulo”. E quem diz São Paulo, diz qualquer outro lado.

Yoga e vegetarianismo

Já é ampla a literatura científica que mostra que uma alimentação vegetariana é a mais saudável e a que mais respeita a ecologia do nosso planeta. Não vamos repetir essa informação aqui, mas sendoO Despertar da Energia um curso que propõe como principal ferramenta a prática de yoga, vale a pena explorar qual a relação entre esta e o vegetarianismo.

Às vezes fica difícil discernir os motivos pelos quais o vegetarianismo é adoptado sem uma compreensão mais profunda desses motivos. O discernimento e a compreensão são valores fundamentais para exercermos a nossa liberdade. O yogi consciente não se torna vegetariano cegamente, apenas porque alguém mandou, ou porque assim se faz há milénios. O yogi consciente adopta o vegetarianismo como um corolário do processo de compreensão da realidade da vida e do papel que o homem exerce no planeta.

Antes de começar, uma palavra sobre o dharma

A tradição do Yoga ensina que a realização espiritual e a verdadeira felicidade só são possíveis se os nossos pensamentos, sentimentos e acções estiverem em harmonia com a ordem universal, chamada dharma. A palavra dharma significa ‘aquilo que mantém unido’, e refere-se não apenas às leis naturais, mas igualmente à Força Consciente de coesão e harmonia que gera e mantém o universo. Tudo é harmonia no universo. Um exemplo óbvio dessa harmonia universal que é expressão do dharma, é que os planetas, cada um seguindo a sua própria órbita, não chocam nunca uns contra os outros.

Porém, o conceito de dharma admite uma outra interpretação no plano humano. Nessa segunda interpretação, podemos afirmar que o dharma é um grupo de valores, eternos e universais, através dos quais se estabelece uma convivência harmoniosa na sociedade. A palavra dharma também pode ser interpretada como ‘fazer a coisa certa’. Nesse sentido, dharma é aquilo ao qual o homem se mantém fiel ao longo da sua vida, o que pauta as suas escolhas e acções. Em suma, a sua missão de vida ou o seu propósito humano.

O dharma e o código de conduta

A compreensão plena do conceito de dharma é essencial para podermos integrar os aspectos mais profundos da prática do Yoga na nossa vida, que estão intrinsecamente ligados ao código de conduta do yogi, chamado yama e niyama.

Esse código de conduta resulta de um longo processo de reflexão, discernimento e sensibilização que os yogis da antiguidade nos legaram. Esse código tem mais a ver com coerência, motivação e coordenação dos esforços do praticante, do que com repressão e controle. A coerência, a coordenação e a motivação que acabamos de mencionar são absolutamente essenciais para podermos distinguir o certo do errado a cada momento.

Não-violência, dharma e vegetarianismo

Esse código de conduta existe para facilitar a tarefa da realização espiritual. Sem ele, não há como progredir na prática. O esteio central do código yogi é ahimsa, a prática da não-violência. Você certamente já ouviu falar na não-violência, uma prática  tão poderosa que, apenas aplicando-a, Mahatma Gandhi e os lutadores pela independência da Índia foram capazes de libertar aquele país do jugo colonialista inglês sem disparar um único tiro. Isso, por sua vez, mostra o infinito poder transformador do Yoga. Ahimsa, portanto, é um formidável instrumento para nos mantermos harmonizados com o dharma.

Existem duas dimensões diferentes na prática da não-violência que estão intrinsecamente ligadas: uma pessoal e uma social. A primeira tem a ver com a forma como nós nos relacionamos connosco mesmos e com a nossa prática pessoal de Yoga. A segunda tem a ver com a maneira como vivemos a vida em sociedade, com a nossa família, os nossos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho.

A segunda dimensão da não-violência, a social, depende directamente da primeira, assim como a unha está ligada à carne. Se os praticantes de Yoga ficarem conscientes, a todos os minutos, de ahimsa, haverá uma transformação profunda na sociedade. Os shastras, textos tradicionais do Yoga, convidam o praticante, como corolário natural da prática da não-violência, a adoptar uma dieta vegetariana.

Algumas razões para o praticante de Yoga se tornar vegetariano

O vegetarianismo tem sido adoptado maciçamente pelos praticantes de Yoga desde há milénios por 3 motivos:

1)    o dharma e a ética ambiental,

2)    a saúde e

3)    o progresso espiritual.

Quanto ao primeiro aspecto, considera-se comer carne um crime contra a lei universal, porque isso significa participar, mesmo que indirectamente, em actos de crueldade e violência contra o reino animal, mas também contra o meio ambiente, quando somos coniventes com a destruição das florestas para fazer pasto para engordar o gado. Se uma parte da extensão de terra fértil usada actualmente para criar gado fosse utilizada para plantar cereais, o problema da fome no mundo acabaria imediatamente.

Em relação à questão da saúde, está mais do que claro que uma dieta rica em carnes é directamente responsável por uma interminável série de problemas de saúde, que vão desde a prisão de ventre até ao cancro de cólon, desde a doença de Parkinson até à doença das vacas loucas, desde a halitose até problemas cardíacos como o enfarte, que, aliás, é a principal causa de mortes no mundo. Se continuarmos de olhos fechados para essas constatações gritantes, continuaremos a viver mal e a morrer cedo. O Uruguai, por exemplo, país onde o consumo de carne vermelha é maciço, é recordista planetário em mortes por cancro de cólon (em números relativos à população).

Em relação ao último ponto, o progresso espiritual, devo dizer que nem todas as tradições espirituais do Oriente abraçaram o vegetarianismo. O budismo tibetano, por exemplo, não menciona o assunto. Isso acontece por dois motivos. Por um lado, o Tibete é um país íngreme, alto e muito frio, onde não é possível para a maioria da população seguir uma dieta vegetariana. Por outro lado, Buda não quis colocar nenhuma restrição aos seus monges em relação à alimentação para evitar que eles se apegassem a uma dieta ou deixassem de aceitar o alimento que lhes era dado como esmola.

De facto, o próprio Buda morreu devido a uma intoxicação que adquiriu num jantar onde lhe foi servido porco, que ele não rejeitou pela questão do desapego mencionada acima. Não obstante esses dois motivos, e outros que poderíamos mencionar, o Dalai Lama recomenda a dieta vegetariana aos seguidores do budismo tibetano.

Excepto o budismo, todas as outras tradições ascéticas da Índia são taxativas em relação à dieta vegetariana: hindus, jainistas e parses aderem desde tempos imemoriais ao vegetarianismo como meio para purificarem não apenas os seus corpos mas igualmente suas mentes e corações.

Para o yogi consciente, devorar a carne de animais mortos é um acto de barbárie que carrega consigo consequências kármicas muito indesejáveis.

Considera-se como regra que, se o alimento foge quando você estende a sua mão para apanhá-lo, você não deve comê-lo. Por outro lado, o reino vegetal parece dar seus alimentos sem demasiado sofrimento. Se estender a minha mão a um cajueiro para apanhar os seus frutos, este generosamente permite que me alimente com eles. A árvore não sofre, o alimento é bom e eu tenho o direito de me beneficiar dele. Por causa disso, considera-se que a dieta vegetariana está em harmonia com o dharma.

A lista de razões para adoptarmos o vegetarianismo não se esgota aqui. Sugerimos que o leitor amplie a sua pesquisa lendo bons livros sobre o assunto ou pesquisando na internet.