Na sua última vinda a Portugal, Colin Campbell, especialista em Bioquímica e Nutrição, disse que uma nutrição holítica e completa consegue-se com multiplicidade de nutrientes, de mecanismos,de agentes reversíveis de doenças e de melhorias na saúde. Para isso, dois factores são essenciais: alimentos integrais e uma dieta à base de vegetais. Três anos depois da conferência do docente da Universidade de Cornell, a Assembleia da República aprovou, em votação final global, um projeto de lei para que se introduza um menu vegetariano nas cantinas públicas. Segundo a Direção Geral de Saúde (DGS), as dietas vegetarianas têm benefícios importantes, como a redução da prevalência de doença oncológica, obesidade, doença cardiovascular, hiperlipidemias (gorduras no sangue), hipertensão, diabetes.

A principal premissa na base do projecto de lei era a liberdade de escolha na alimentação.

“As pessoas sensíveis não são capazes/
De matar galinhas/
Porém são capazes/
De comer galinhas/”

Sophia de Mello Breyner

O cão no prato

 

Qual seria a diferença entre comer um cão e um porco? Por que tendemos a ver o porco, animal conhecido pela inteligência, como comida, e o cão como o nosso melhor amigo? A ironia do caso é que nem sempre o consumidor de carnes ingere exactamente aquilo que imagina. Como se não bastasse a questão do direito à vida dos animais, que muitos humanos sequer consideram, nem a questão da própria saúde da pessoa, nem as demais questões relativas à ética ou à ecologia, ainda, quem consome carnes, se arrisca a comer carne de cachorro ou gato. Uma notícia do dia 12/11/2009 na Folha Online mostra: “Polícia apreende 60 kg de carne de cachorro e gato vendida a restaurantes em São Paulo”. E quem diz São Paulo, diz qualquer outro lado.

Yoga e vegetarianismo

Já é ampla a literatura científica que mostra que uma alimentação vegetariana é a mais saudável e a que mais respeita a ecologia do nosso planeta. Não vamos repetir essa informação aqui, mas sendoO Despertar da Energia um curso que propõe como principal ferramenta a prática de yoga, vale a pena explorar qual a relação entre esta e o vegetarianismo.

Às vezes fica difícil discernir os motivos pelos quais o vegetarianismo é adoptado sem uma compreensão mais profunda desses motivos. O discernimento e a compreensão são valores fundamentais para exercermos a nossa liberdade. O yogi consciente não se torna vegetariano cegamente, apenas porque alguém mandou, ou porque assim se faz há milénios. O yogi consciente adopta o vegetarianismo como um corolário do processo de compreensão da realidade da vida e do papel que o homem exerce no planeta.

Antes de começar, uma palavra sobre o dharma

A tradição do Yoga ensina que a realização espiritual e a verdadeira felicidade só são possíveis se os nossos pensamentos, sentimentos e acções estiverem em harmonia com a ordem universal, chamada dharma. A palavra dharma significa ‘aquilo que mantém unido’, e refere-se não apenas às leis naturais, mas igualmente à Força Consciente de coesão e harmonia que gera e mantém o universo. Tudo é harmonia no universo. Um exemplo óbvio dessa harmonia universal que é expressão do dharma, é que os planetas, cada um seguindo a sua própria órbita, não chocam nunca uns contra os outros.

Porém, o conceito de dharma admite uma outra interpretação no plano humano. Nessa segunda interpretação, podemos afirmar que o dharma é um grupo de valores, eternos e universais, através dos quais se estabelece uma convivência harmoniosa na sociedade. A palavra dharma também pode ser interpretada como ‘fazer a coisa certa’. Nesse sentido, dharma é aquilo ao qual o homem se mantém fiel ao longo da sua vida, o que pauta as suas escolhas e acções. Em suma, a sua missão de vida ou o seu propósito humano.

O dharma e o código de conduta

A compreensão plena do conceito de dharma é essencial para podermos integrar os aspectos mais profundos da prática do Yoga na nossa vida, que estão intrinsecamente ligados ao código de conduta do yogi, chamado yama e niyama.

Esse código de conduta resulta de um longo processo de reflexão, discernimento e sensibilização que os yogis da antiguidade nos legaram. Esse código tem mais a ver com coerência, motivação e coordenação dos esforços do praticante, do que com repressão e controle. A coerência, a coordenação e a motivação que acabamos de mencionar são absolutamente essenciais para podermos distinguir o certo do errado a cada momento.

Não-violência, dharma e vegetarianismo

Esse código de conduta existe para facilitar a tarefa da realização espiritual. Sem ele, não há como progredir na prática. O esteio central do código yogi é ahimsa, a prática da não-violência. Você certamente já ouviu falar na não-violência, uma prática  tão poderosa que, apenas aplicando-a, Mahatma Gandhi e os lutadores pela independência da Índia foram capazes de libertar aquele país do jugo colonialista inglês sem disparar um único tiro. Isso, por sua vez, mostra o infinito poder transformador do Yoga. Ahimsa, portanto, é um formidável instrumento para nos mantermos harmonizados com o dharma.

Existem duas dimensões diferentes na prática da não-violência que estão intrinsecamente ligadas: uma pessoal e uma social. A primeira tem a ver com a forma como nós nos relacionamos connosco mesmos e com a nossa prática pessoal de Yoga. A segunda tem a ver com a maneira como vivemos a vida em sociedade, com a nossa família, os nossos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho.

A segunda dimensão da não-violência, a social, depende directamente da primeira, assim como a unha está ligada à carne. Se os praticantes de Yoga ficarem conscientes, a todos os minutos, de ahimsa, haverá uma transformação profunda na sociedade. Os shastras, textos tradicionais do Yoga, convidam o praticante, como corolário natural da prática da não-violência, a adoptar uma dieta vegetariana.

Algumas razões para o praticante de Yoga se tornar vegetariano

O vegetarianismo tem sido adoptado maciçamente pelos praticantes de Yoga desde há milénios por 3 motivos:

1)    o dharma e a ética ambiental,

2)    a saúde e

3)    o progresso espiritual.

Quanto ao primeiro aspecto, considera-se comer carne um crime contra a lei universal, porque isso significa participar, mesmo que indirectamente, em actos de crueldade e violência contra o reino animal, mas também contra o meio ambiente, quando somos coniventes com a destruição das florestas para fazer pasto para engordar o gado. Se uma parte da extensão de terra fértil usada actualmente para criar gado fosse utilizada para plantar cereais, o problema da fome no mundo acabaria imediatamente.

Em relação à questão da saúde, está mais do que claro que uma dieta rica em carnes é directamente responsável por uma interminável série de problemas de saúde, que vão desde a prisão de ventre até ao cancro de cólon, desde a doença de Parkinson até à doença das vacas loucas, desde a halitose até problemas cardíacos como o enfarte, que, aliás, é a principal causa de mortes no mundo. Se continuarmos de olhos fechados para essas constatações gritantes, continuaremos a viver mal e a morrer cedo. O Uruguai, por exemplo, país onde o consumo de carne vermelha é maciço, é recordista planetário em mortes por cancro de cólon (em números relativos à população).

Em relação ao último ponto, o progresso espiritual, devo dizer que nem todas as tradições espirituais do Oriente abraçaram o vegetarianismo. O budismo tibetano, por exemplo, não menciona o assunto. Isso acontece por dois motivos. Por um lado, o Tibete é um país íngreme, alto e muito frio, onde não é possível para a maioria da população seguir uma dieta vegetariana. Por outro lado, Buda não quis colocar nenhuma restrição aos seus monges em relação à alimentação para evitar que eles se apegassem a uma dieta ou deixassem de aceitar o alimento que lhes era dado como esmola.

De facto, o próprio Buda morreu devido a uma intoxicação que adquiriu num jantar onde lhe foi servido porco, que ele não rejeitou pela questão do desapego mencionada acima. Não obstante esses dois motivos, e outros que poderíamos mencionar, o Dalai Lama recomenda a dieta vegetariana aos seguidores do budismo tibetano.

Excepto o budismo, todas as outras tradições ascéticas da Índia são taxativas em relação à dieta vegetariana: hindus, jainistas e parses aderem desde tempos imemoriais ao vegetarianismo como meio para purificarem não apenas os seus corpos mas igualmente suas mentes e corações.

Para o yogi consciente, devorar a carne de animais mortos é um acto de barbárie que carrega consigo consequências kármicas muito indesejáveis.

Considera-se como regra que, se o alimento foge quando você estende a sua mão para apanhá-lo, você não deve comê-lo. Por outro lado, o reino vegetal parece dar seus alimentos sem demasiado sofrimento. Se estender a minha mão a um cajueiro para apanhar os seus frutos, este generosamente permite que me alimente com eles. A árvore não sofre, o alimento é bom e eu tenho o direito de me beneficiar dele. Por causa disso, considera-se que a dieta vegetariana está em harmonia com o dharma.

A lista de razões para adoptarmos o vegetarianismo não se esgota aqui. Sugerimos que o leitor amplie a sua pesquisa lendo bons livros sobre o assunto ou pesquisando na internet.

 

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